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'A realidade é pior do que se pode imaginar’: diz jornalista que viveu disfarçada na Coreia do Norte

Veja os relatos de Suki Kim, que viveu por seis meses a ditadura norte-coreana.

27 de maio de 2018
Por: Edson Filho

Jornalista, nascida na Coreia do Sul e cidadã norte-americana, Suki Kim conseguiu um trabalho para dar aulas de inglês na única universidade privada do país, onde estudam apenas os “futuros líderes”.

 

Ela passou os 6 meses do curso que ministrou tomando notas dos costumes de lá para escrever o livro 'Without You, There Is No Us: My Time with the Sons of North Korea's Elite' (Sem você, não há nós: meu tempo com os filhos da elite norte-coreana).

 

Kim conta a BBC detalhes impressionantes que presenciou, diz que viveu todo esse tempo num lugar isolado do mundo, onde o medo comum a todas as pessoas, todos vivem se vigiando e com a grande dúvida se ia conseguir sair dali ou morrer.

 

📷 Visto de entrada à Coreia do Norte concedido a Suki Kim | Suki Kim

📷 Visto de entrada à Coreia do Norte concedido a Suki Kim | Suki Kim

 

 

Se interesse na Coreia do Norte vem de duas razões: Como jornalista, tinha uma frustração por não saber a verdade sobre o que ocorre neste lugar, e sua família foi separada pela guerra das Coreias em 1950, o que trouxe a razão pessoal.

 

Essa guerra e a posterior divisão da península separaram milhões de coreanos. Seu tio, irmão de sua mãe, ficou no norte, sua avó nunca voltou a vê-lo. O mesmo ocorreu com muitas outras pessoas, pelo simples engado de estar no outro lado.

 

De Pyongyang a Seul (capital de Coreia do Sul), são necessárias apenas duas horas de carro. Mas quando traçou-se a linha que dividiu a península, o Paralelo 38, em 1953, as pessoas que ficaram no norte nunca voltaram a ver seus familiares.

 

📷 No Aeroporto Internacional Sunan, de Pyongyang, uma guarda leva uma placa que diz: 'O Sol do Século XXI', em homenagem a Kim Jong Il | Suki Kim

📷 No Aeroporto Internacional Sunan, de Pyongyang, uma guarda leva uma placa que diz: 'O Sol do Século XXI', em homenagem a Kim Jong Il | Suki Kim

 

 

Em 2011, Suki Kim conseguiu um emprego na recém-inaugurada Universidade para a Ciência e Tecnologia de Pyongyang (PUST), a única universidade privada da Coreia do Norte, frequentada por filhos de dirigentes norte-coreanos. A PUST foi fundada por grupos evangélicos de vários países. Seus funcionários são principalmente professores americanos que estão ali como voluntários, financiados por suas igrejas.

 

A Coreia do Norte está cheia de paradoxos. E esta universidade é uma delas. A religião não é permitida, e o proselitismo é um crime muito sério, castigado com a morte. O único que se venera no país é o Grande Líder.

 

Assim, grupos evangélicos fundamentalistas estão financiando a educação dos futuros líderes do país em troca de um potencial propósito missionário de longo prazo.

 

📷 Suki Kim no dia que partiu rumo a Pyongyang em um voo da empresa norte-coreana Air Koryo em 2011 | Suki Kim

📷 Suki Kim no dia que partiu rumo a Pyongyang em um voo da empresa norte-coreana Air Koryo em 2011 | Suki Kim

 

 

O governo tem que aprovar tudo o que ocorre na universidade. Eles selecionam os estudantes, que são principalmente filhos dos funcionários do partido dirigente. Na Coreia do Norte, o governo decide tudo sobre o indivíduo: a carreira que seguirá, a escola onde estudará, as atividades que fará.

 

Quando Suki esteve ali, havia 270 estudantes, todos homens que viviam no campus. Ela ensinava inglês para duas classes, com cerca de 50 alunos de 19 e 20 anos cada.

 

A universidade é vigiada por militares e ninguém tem permissão para sair.

 

📷 A Universidade para a Ciência e Tecnologia de Pyongyang (PUST) é a única universidade privada na Coreia do Norte. Foi fundada e é financiada por evangélicos fundamentalistas | Suki Kim

📷 A Universidade para a Ciência e Tecnologia de Pyongyang (PUST) é a única universidade privada na Coreia do Norte. Foi fundada e é financiada por evangélicos fundamentalistas | Suki Kim

 

 

O governo define as escoltas que vivem com os professores no campus e seu trabalho é monitorá-los 24 horas por dia. Kim tive uma escolta a vigiando dia e noite, literalmente, já que dormia no quarto abaixo do dela.

 

Tudo o que faziam e ensinavam devia ser aprovado, monitorado e gravado.

 

“Vivi o tempo todo aterrorizada. Se não tivesse escrevendo o livro, minha situação teria sido diferente, mas estava tomando notas em segredo e sabia que nunca ninguém tinha tentado fazer isto no país.” Conta.

 

📷 Os estudantes que vão à universidade são selecionados pelo governo e em sua maioria são os filhos de membros do partido dirigente | Suki Kim

📷 Os estudantes que vão à universidade são selecionados pelo governo e em sua maioria são os filhos de membros do partido dirigente | Suki Kim

 

 

A possibilidade de que a escolta descobrisse essas notas lhe dava arrepios. No seu quarto, havia microfones ocultos.

 

Os estudantes também estão sob um sistema de supervisão constante. Nunca estavam sozinhos. Vigiavam uns aos outros. Costumavam ter uma reunião semanal na qual informavam sobre os outros estudantes e sobre os professores.

 

Eles são tratados como soldados. Fazem exercícios em grupo, correm em grupo, cada hora saem para marchar em grupo para honrar o Grande Líder, e constantemente são doutrinados sobre a grandeza do Grande Líder e o ódio aos Estados Unidos.

 

📷 Os estudantes fazem exercícios físicos em grupo | Suki Kim

📷 Os estudantes fazem exercícios físicos em grupo | Suki Kim

 

 

“Eu cheguei a sentir um grande afeto por meus estudantes, que pareciam muito mais inocentes que outros jovens de 20 anos em outras partes do mundo.

 

Eram adoráveis, enérgicos e curiosos. Os típicos estudantes desta idade que fazem piadas o tempo todo, que falam de garotas o tempo todo. Esse aspecto humano é um enorme contraste com o estilo de vida que lhes é imposto e ao qual estão continuamente expostos.” Explica.

 

Foi sob esta constante vigilância que entendeu a insuportável situação na qual vivem, o medo de estar sempre vigiando e denunciando os demais, a impossibilidade de ir a qualquer lugar ou com qualquer pessoa, e a forma como se restringe seu mundo, sua imaginação.

 

📷 Suki na sala de aula traduzindo a letra de uma canção norte-coreana para seus estudantes | Suki Kim

📷 Suki na sala de aula traduzindo a letra de uma canção norte-coreana para seus estudantes | Suki Kim

 

 

Para o resto do mundo, a Coreia do Norte é um enigma. Mas o que pensam os norte-coreanos sobre o que está além de suas fronteiras? Suki Kim assegura que estes jovens não têm permissão de expressar nenhuma curiosidade sobre o mundo exterior. E isto, diz a escritora, é um tipo de abuso psicológico que condiciona cidadãos a aceitar o que lhes rodeia sem questionamentos.

 

Nesta época, em 2011, os estudantes nunca tinham ouvido falar de internet, e ela era proibida de falar sobre isto. Tinha ordens estritas de não revelar nada sobre o mundo exterior e eles não tinham nenhuma informação sobre o que ocorria fora de seus país, não conheciam o Taj Mahal, nem a Torre Eiffel, e tampouco sabiam quem era Michael Jackson.

 

A televisão na Coreia do Norte tem apenas um canal com programas sobre o Grande Líder. Também são transmitidos programas da China ou da Rússia, todos baseados nos "ideais socialistas".

 

📷 Suki Kim tinha cerca de 50 alunos em uma sala de aula no curso de inglês | Suki Kim

📷 Suki Kim tinha cerca de 50 alunos em uma sala de aula no curso de inglês | Suki Kim

 

 

Há apenas um jornal e os artigos publicados também estão vinculados ao Grande Líder. O mesmo ocorre com os livros que leem e com todas as outras formas de educação e entretenimento.

 

Toda sua rotina e seu entretenimento funcionam para honrar o regime e a filosofia do sistema. Na universidade, ocasionalmente jogavam futebol e basquete.

 

É preciso lembrar que estes são os jovens das elites, mas que o resto da população vive sob o mesmo controle, só que sem aulas de inglês.

 

📷 'Cheguei a sentir um grande afeto pelos estudantes', disse Suki Kim | Suki Kim

📷 'Cheguei a sentir um grande afeto pelos estudantes', disse Suki Kim | Suki Kim

 

 

Houve ocasiões, aos domingos, quando nos permitiram sair em grupo e com escoltas em excursões que tinham sido previamente aprovadas, entre elas para visitar e colocar flores em edificações do Grande Líder.

 

Suki pôde ver que as pessoas fora a capital eram menores. As pessoas com quem tinha permissão para interagir, como os estudantes. Mas as pessoas que se veem nas margens de estradas são marcadamente menores e parecem malnutridas. Nunca foi permitida a falar com ninguém nas ruas.

 

Os lugares para onde os levavam pareciam cenários de filme e nunca havia pessoas nesses lugares. Só se via os outros membros do grupo e, por toda parte, todos os lugares estavam cobertos com milhares de slogans do Grande Líder.

 

📷 Excursões de fim de semana, que precisavam ser precisamente aprovadas, geralmente visitavam lugares com estátuas do Grande Líder | Suki Kim

📷 Excursões de fim de semana, que precisavam ser precisamente aprovadas, geralmente visitavam lugares com estátuas do Grande Líder | Suki Kim

 

 

O controle no país é algo muito forte. Controlam cada aspecto da vida e tudo está relacionado ao Grande Líder.

 

Depois de toda a investigação que tinha feito sobre a Coreia do Norte, Suki nunca tinha imaginado que pudesse existir um controle tão grande. A realidade é pior do que se pode imaginar.

 

Além de 'Without You, There Is No Us", Kim Suki é autora do romance "The Interpreter" (O Intérprete) e escreve regularmente para o New York Times, Washington Post, Harper's e New Republic.

 

O que achou dos relatos? Acha que é impressionante saber destes fatos em pleno século XXI? Deixe aqui seu comentário!

 

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Palavras-chave: CURIOSIDADES DIVERSIDADE SOCIAL


Fonte: BBC


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